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ARQUIVO DE ARTIGOS DE OPINIÃO

 

 

 

Penalties que parecem ser



Artigo da Semana
Publicado em colaboração com o blogue Apito de Lata



Por José Guerra
joseguerra.oarbitro.com

 


Esta semana abordo um tema sistematicamente reincidente, ou seja, a marcação dos penalties por parte dos árbitros, que tanta polémica gera. Baseio-me, para estas breves palavras, num artigo que publiquei, com o mesmo título, na rubrica "Quase nada é novo no Futebol" do jornal Diário do Sul, em 28 de Novembro de 2005, em que analisei e reflecti sobre as palavras de Melo Costa.

Melo Costa escrevia em 1970 que "Mais vale andar no mar alto que ser árbitro...”. E escrevia esta frase num artigo em que se concentrava num penalty assinalado pelo árbitro, que afinal não tinha sido, na realidade, grande penalidade.
 

Na ultima semana muito se falou sobre os penalties não assinalados pelo árbitro Bruno Paixão no jogo entre o Sporting e o Porto.

Esta situação em que o árbitro fica exposto à opinião e ao erro não é de ontem, nem de hoje. É e será de sempre. O erro existirá sempre no futebol e haverá sempre um homem que vai ouvir "das boas" sobre o erro que comete.

Voltemos ao artigo de Melo Costa, do qual quero deixar-vos alguns trechos, não sem antes destacar dois aspectos que merecem reflexão. O primeiro prende-se com a denuncia do erro do árbitro, esse que é, nos dias de hoje, corrente em todos os comentários aos jogos de futebol mas que no artigo de Melo Costa é claro que se aponta o erro como erro que é e não divagar e explorar este aspecto ao gosto das tendências gerais dos leitores ou adeptos dos clubes. O segundo aspecto que julgo merecer o destaque é a consideração que Melo Costa tem pela figura do árbitro enquanto pessoa, destacando, no caso, a honestidade de António Amara, o árbitro visado, ao contrário dos dias de hoje onde se atacam tudo e todos com acusações de desonestidade. Chega mesmo a enfatizar este aspecto dizendo "não será brilhante mas é - e quanto vale isso? - estruturalmente honesto.”
O árbitro tem de ser visto como pessoa honesta e, como tal, erra como erram todos os seres humanos. Melo Costa dignifica, na sua época, a missão de quem comunica.
 

Mais vale andar no mar alto que ser árbitro de futebol
MELO E COSTA

«Não sabemos qual dos atributos será mais necessário para se ser Árbitro neste mundo de Cristo, porque ser Árbitro com conhecimento integral da sua função e das suas consequências é algo que transcende o trivial. E preciso muita coragem ou muito optimismo na melhoria cívica das gentes, muito amor à causa ou muita consciência quanto ao calvário que o espera.

O Árbitro é juiz, julgado por milhares de pessoas das quais não se pode esperar contemporização nem qualquer anunciado de atenuantes. E contudo ele é a figura central do jogo e sem a qual o próprio jogo não poderá subsistir.

Futebol sem árbitro é ideia tão peregrina e utópica como jogar sem balizas. Ele é parte integrante do próprio jogo. Contudo, como ele tem de fazer ouvidos de mercador, como ele tem de fazer figuras de cobarde, como ele tem de se revestir duma paciência que é só apanágio dos santos! É juiz que erra - como podem errar todos os juízes - mas o erro faz parte da nossa própria condição humana e o Árbitro, acreditem!, é um homem! Ele é juiz mas o juiz que tem de julgar no acto e sem hesitações - é aplicação da lei, que tem de conhecer a fundo, disparada na prática, com a velocidade dum cérebro electrónico.

E não será de admirar que o Árbitro erre? Porque tantos impropérios, tantos palavrões e tantas atitudes que, ao final da tarde, no remanso do nosso quarto, tranquilo e silencioso, nos fazem sentir, quando os rememoramos, os ridículos e impróprios da nossa condição?

No Leixões - Sporting, António Amaro, por causa do "penalty" que considerou, ouviu das "boas e bonitas"... Em nosso entender errou. Para muitos, não somente errou como, e principalmente, lesou, de má-fé, a equipa. O Árbitro Conimbricense pode ser juiz de alta craveira em crer, até que lhe falta aquele "quid" que distingue os génios, os juízes excepcionais daqueles que reconhecidamente bons são só bons.
Mas há um factor que António Amara parece trazer estampado no rosto - e esse é o da sua honestidade. Sempre que o vimos actuar, sempre que lhe apontamos reparos - e tantas vezes o fizemos já... - só nos forneceu motivos para mais e mais consolidar a nossa impressão de que, errando, errou convencido que julgou bem, que julgou como devia, face à aplicação das leis e da sua consciência. Não será brilhante mas é - e quanto vale isso? - estruturalmente honesto. (...)
Manter a serenidade quando o vulcão está sob os pés, manter a lucidez ante toda a casta de provocações, julgar como clarividência e precisão quando os próprios intervenientes tudo fazem para provocar a confusão e atenuar ou agravar as actos, cumprem as circunstancias que lhes interessam, fazer-se ouvir e não ouvir a linguagem desbragada que se atira lá para dentro, ter de ver tudo e não ver os paroxismos dos assistentes excitados, correr quilómetros, bufar a um apito e quase sempre ter a crítica a cair-lhe em cima e, mesmo assim, ser árbitro e teimar em ser árbitro é qualquer coisa que nos escapa à recepção. Nós, porém, somos dos que dizemos que "mais vale andar no mar alto que ser Árbitro de futebol, neste mundo"... »
 

José Guerra

 

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Última actualização: 14-03-2014