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ARQUIVO DE ARTIGOS DE OPINIÃO

 


 

PROTESTAR

Artigo da Semana
Publicado em colaboração com o blogue Apito de Lata



Por José Guerra
joseguerra.oarbitro.com

 

Dizia, há dias, o líder da Comissão de Gestão do Belenenses em entrevista ao Jornal "A Bola" que todos os Domingos se protestam as arbitragens em caso de derrota. E não é apenas ele que o afirma.

Tenho bastante pena que a nossa imprensa desportiva não possa publicar e dar a conhecer fabulosos artigos que grandes jornalistas, árbitros e dirigentes escreveram há quase meio século.

44 anos, João Gomes, um árbitro do Porto, escrevia exactamente sobre os protestos, num tom semelhante, salientando a razão de queixa da sua classe, ou seja, estarem os árbitros proibidos de eleger os seus dirigentes. Hoje, como há quarenta e tal anos, esta proibição mantém-se.

João Gomes não acreditaria que hoje as coisas estão iguais ou piores, mesmos passadas mais de três décadas sobre o final da ditadura e da censura, altura em que o mesmo publicou as suas opiniões.

A Democracia ainda não chegou à arbitragem de forma a proporcionar aos árbitros a possibilidade de elegerem os seus dirigentes.

Sobre o artigo de João Gomes deixo aqui, com a devida vénia, um texto que publiquei, já lá vão cerca de três anos, no Diário do Sul, para que possam verificar que "quase nada é novo no futebol".

«Não há dúvida nenhuma que protestar é uma moda que pegou e hoje não há ninguém que não proteste. Aliás, protestar é nos dias que correm, uma forma de afirmação, que é legítima se for regida pela verdade e não for apenas gratuita.

O problema é que muitas vezes os protestantes, são eles próprios o garante do sistema contra quem protestam. Mas, desenganem-se aqueles que pensam que é de hoje o protesto ou que é de hoje o protesto mal direccionado. Desde sempre no futebol, os que protestam parecem ignorar ou ignoram mesmo o que está em causa quando o fazem.

Em 1964, João Gomes, um árbitro do Porto escrevia o seguinte contra os protestantes: "Amiúde se ouvem e lêem verberações e acusações aos dirigentes dos diversos departamentos desportivos. Todavia elas são destituídas de qualquer razão, porque na maioria das vezes os descontentes são vítimas de si próprios." E vai mais longe ao afirmar que "triste panorama do pobre desporto, em que se arranjam lugares para homens, quando se devia escolher os homens para os lugares."

Esta frase não é de hoje, é de 1964, e, no entanto, permanece extremamente actual. João Gomes explica então a sua teoria: "Ainda há dias conversando com um amigo que já não via há bastante tempo, a breve trecho falámos de desporto e do seu clube, de que tem sido por diversas vezes director, tendo ele replicado que já pouco ligava ao desporto, desiludido e desgostoso com diversos casos...".

Depois de ouvir os lamentos do amigo, o articulista resolver esclarecer este dirigente desportivo comentando "Olha, não tens razão nenhuma. Queres ver: do que se passa nas Associações, Federações, Conselhos Técnicos, etc, sejam de que modalidade for, a culpa é vossa, tua e dos teus colegas. Quanto aos árbitros, é certo que haverá uns mais competentes do que outros, aliás como em todas as actividades da vida, mas ainda disso a culpa continua a ser vossa. Ele arregalou os olhos e eu nem o deixei falar. Queres saber porquê? Quem elege as direcções das Associações? São os delegados dos clubes, respondeu ele. Quem elege os Conselhos Técnicos, as Federações, etc? Como vês todos os cargos da escala hierárquica desportiva são providos, directa ou indirectamente pelos clubes.
Ora, sendo assim, que razão vos assiste para protestar contra o que julgais menos acertado? Tivessem os dirigentes dos clubes a necessária ponderação e a indispensável personalidade para recusar a eleição de indivíduos que não reunissem um apreciável somatório de qualidades, e o desporto nacional caminhava muito melhor."

E João Gomes rematava "razão de queixa temos nós, a quem nos são impostos dirigentes, sem que sejamos ouvidos para eleger quem quer que seja, tendo de aceitar quem os clubes querem nomear...".

Como se vê protestantes há muitos, ontem como hoje a maior parte das vezes protestam sem razão, por desconhecimento, porque não acredito que protestem por má fé... mas no entanto vão fazendo um ruído que afasta as pessoas da resolução dos verdadeiros problemas do desporto português.»

José Guerra

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Última actualização: 14-03-2014